Gratidão: Olhar para o que já temos!

Recordam-se da última vez que compraram um objeto ou uma prenda pessoal? Pode ter sido um jogo, uma peça de roupa, uma televisão ou um carro… Provavelmente desejaram muito comprar esse item, podem ter andado dias ou meses a pensar em comprá-lo, a “namorá-lo”, e quando finalmente o adquiriram como se sentiram? Satisfeitos? Realizados? Felizes? Espera-se que sim…!

Mas por quanto tempo? Quanto tempo durou a felicidade ou a emoção trazida por esse objeto?

Vivemos a nossa vida a querer que seja diferente, a desejar outras coisas. Se temos A, achamos que quando tivermos B é que vamos ser felizes, mas quando chegamos a B, com muita certeza acreditamos que é com C que nos vamos sentir plenamente satisfeitos.

Esta é uma das origens do sofrimento mais transversais à humanidade: o desejo…, nomeadamente desejar que as coisas sejam diferentes do que são (se quiser ver mais sobre a origem do sofrimento em https://conscienciaplena.pt/mindfulness#oquenaoe )

Quando a mente experimenta algo desagradável, deseja ver-se livre do desagradável.

Quando a mente experimenta algo agradável, deseja que o prazer continue e se intensifique. Assim, a mente está sempre insatisfeita e inquieta.

Quando experimentamos coisas desagradáveis como a dor, isto torna-se muito fácil de compreender, porque enquanto a dor permanece, fazemos tudo o que podemos para a “resolver”, para a evitar. No entanto, quando experimentamos coisas agradáveis, não é muito diferente…. porque não queremos que aquilo que estamos a sentir acabe, queremos que dure para sempre, ou que se intensifique, ou temos medo que desapareça. Então, embora estejamos a sentir algo agradável, continuamos a desejar…

O mindfulness significa ver as coisas tal como elas são, sejam elas agradáveis ou desagradáveis. Não significa que tenhamos que gostar do que está, e, na verdade, mais facilmente prendemos a nossa atenção no que não está bem, no que no que está bem.

Claro que em termos evolucionários, e em determinados contextos resultou bem para a nossa espécie estar alerta e ser reativo ao que era ameaçador ou negativo.

Mas na maior parte dos contextos em que vivemos hoje em dia, a nossa vida não está ameaçada, e ainda assim dificilmente nos libertamos deste estado de predador, em constante alerta, para prestarmos atenção aos aspetos positivos da nossa experiência.

Uma boa síntese desta ideia, está numa frase do livro “Buddha’s Brain”: “muito do nosso corpo é constituído pelos alimentos que ingerimos, assim como uma boa parte da nossa mente é constituída pelas experiências que temos” (Hanson, R. & Mendius, R., em Buddha’s Brain)

Mas, significa isto que devemos suprimir o que é negativo?

Não, quando acontece algo é importante vermos o que está, mesmo que seja desagradável. O que podemos fazer é alimentar, reforçar, tirar o máximo partido das experiências positivas sempre que elas acontecem, ou dito de outra forma estarmos verdadeiramente presentes nesses momentos, e absorver a experiência na sua totalidade.

Olharmos para o que temos, apreciarmos o que damos por adquirido, pode ser um bom antídoto para este desejo insaciável.

O pequeno-almoço que tomámos de manhã, a água quente do banho, o conforto de um casaco que nos agasalha, aquela pessoa a quem podemos ligar se precisarmos de um ombro, a casa que nos protege do frio e nos mantém em segurança, a rua sem tiros, sem guerra, podem ser dados adquiridos para alguns de nós, mas não o são para muitas outras pessoas que partilham este mesmo planeta, e algumas delas podem até viver muito perto de nós.

O mindfulness ao permitir ver com mais clareza o que está, ajuda-nos a estarmos mais conscientes de todos os aspetos da nossa experiência, inclusive aqueles pelos quais estamos gratos.

E se, ao invés de olharmos para o que nos falta, ou o que achamos que precisamos, olharmos para o que temos? E se, ao olharmos para o que temos, tirarmos um momento para sentir gratidão por isso? E se nos deixarmos preencher, ainda que só por momentos, desse sentimento de gratidão, alimentando a nossa mente com esse sentimento?

Boas práticas!

Diana Duarte

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